domingo, setembro 04, 2005

mãos à terra!


Há uns dias atrás, comprei dois pés de morangueiro no horto do costume. Quando os fui regar, encontrei-os presos a um torrão "encolhido" e ressequido de turfa, o que não me pareceu ser muito saudável para as raízes. Decidida a investigar sobre o assunto, encontrei informação suficiente para perceber que o uso de turfa tem consequências bem mais nefastas do que pensava.
O uso intensivo de turfa pelos viveiristas e jardineiros amadores deve ter começado em meados do século passado. Os extractores e comerciantes de turfa convenceram-nos de que se tratava do substrato ideal: embora pobre em nutrientes, a turfa era leve, conservava bem a água e o adubo e melhorava a estrutura da terra.
Formada por productos de origem vegetal em decomposição (musgos, árvores, juncos), a turfa encontra-se no seu estado natural em diversas zonas do planeta (da Europa à Indonésia ou Alasca). Cerca de 5-8% da superfície da Terra é constituida por turfeiras e 60% das turfeiras tropicais do mundo situa-se no Sudoeste Asiático. Nestes pântanos, as turfeiras cumprem uma função ecológica importante: nos períodos das chuvas, constituem um mecanismo de controle natural das inundações, actuando como esponjas que absorvem o excedente de água da chuva e dos rios; nas estações de seca, libertam as fontes de água necessárias.
Para além disso, as turfeiras servem de habitat a uma diversidade de flora e fauna selvagens (plantas carnívoras, por exemplo, e pássaros e invertebrados) e, quando situadas no litoral, protegem as terras contra a introsão de água salgada do mar.
Os apaixonados por arqueologia conhecem ainda a sua capacidade de conservação e "arquivo" de materiais arqueológicos, antropológicos e de história natural (por exemplo, madeiras carbonizadas e pólens, de grande utilidade para a datação).
O mais importante de tudo é que as turfeiras protegem a terra do aquecimento global e do efeito-estufa, absorvendo o dióxido de carbono e retendo-o.
Mas a extracção da turfa para fins comerciais aumentou drasticamente nas últimas décadas, provocando a dessecação das turfeiras. Quando seca, a turfa decompõe-se e liberta de novo o dióxido de carbono para a atmosfera. Para além disso, aumenta o risco de colapso do solo e torna-se altamente inflamável (sob condições geológicas adequadas, a turfa transforma-se mesmo em carvão). No Reino Unido, por exemplo, são vendidos 2,5 milhões de m3 de turfa todos os anos! Como o processo de reposição e recuperação das camadas de turfa é muito lento, imaginem a quantidade de hectares de turfeira destruídos.
O que fazer então? A resposta é óbvia: recusar o uso de turfa nos nossos jardins e vasos e protestar sempre que um horto nos tenta impingí-la. Voltar atrás, ao tempo em que se usava composto misturado com terra.
Um jardineiro que ia a casa dos meus Avós respondia com um "Mãos à terra, menina! Mãos à terra!" sempre que eu o bombardeava com perguntas sobre os "mistérios insondáveis" da jardinagem. Jardi-Mário, estou a seguir o seu conselho!

5 comentários:

Anónimo disse...

Pois é. Não estava tão bem elucidado sobre a turfa. Sei que em Inglaterra, recolhas industriais nos bosques estão proibidas (tipo folhas, para o composto de folhas que eles chamam "leaf mould") -- cá ainda se está na fase de clamar por limpeza das matas. Acho que este tipo de produtos por lá tem de ser certificado.
Por coincidência, também tinha colocado no Sargaçal uma notícia da BBC sobre a destruição das turfeiras tropicais. -- JRF

cajolas disse...

A remoção de qualquer que seja o material da terra é sempre nefasto quando feito em quantidades exageradas (de forma insustentável).
No entanto essa utilização minimiza, por exemplo, os gastos em água, o que só por si é uma grande mais valia.
Em vez de nos manifestarmos "radicalmente" contra essa exploração, façamos nós um trabalho exemplar, utilizando compostagem e outras formas de substituir a turfa, e minimizaremos os danos causados.

jardineira disse...

Pois, o problema disparou a partir do momento em que a procura justificou o aparecimento da indústria de extracção da turfa. O ritmo e volume de extracção elevados inviabilizam a correspondente reposição de material vegetal.
A única forma de contribuirmos para a resolução do problema é substituir a turfa por composto, e adoptar práticas que possam impedir a evaporação de água (cobertura do solo com estilha, casca de árvores ou gravilha,por exemplo).

Inês disse...

Estou muito contente por ter descoberto este blogue.Parabéns e obrigada pela partilha de conhecimento.

Vateira disse...

Muito interessante, este texto.